Desafio da leitura no Brasil vai além do interesse e envolve acesso, incentivo e condições socioeconômicas
A ideia de que o brasileiro não gosta de ler precisa ser vista com mais cuidado. Para o escritor ouvido pela Agência Brasil, o problema está menos na falta de interesse pela leitura e mais nas dificuldades que parte da população enfrenta para ter contato com livros e desenvolver o hábito de leitura.
O acesso aos livros ainda é marcado por desigualdades no país. Em muitas regiões, bibliotecas são insuficientes, distantes ou possuem acervos limitados. O preço dos livros também pode representar uma barreira para famílias de menor renda.
A discussão ganha ainda mais importância diante dos dados sobre o comportamento dos leitores brasileiros. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, em sua sexta edição, apontou que 53% da população não havia lido nenhum livro, ou parte dele, nos três meses anteriores ao levantamento. O país tinha cerca de 93,4 milhões de leitores, equivalentes a 47% da população.
Acesso é parte fundamental do problema
Para o escritor, afirmar simplesmente que o brasileiro não gosta de ler ignora fatores que influenciam diretamente a formação de novos leitores.
O contato com os livros depende de oportunidades. Escola, família, bibliotecas, projetos culturais e políticas públicas podem desempenhar papel decisivo para aproximar crianças, jovens e adultos da literatura.
A experiência de projetos de incentivo à leitura também mostra que, quando o livro chega ao público de maneira adequada, a resistência pode diminuir. O incentivo, portanto, não deve estar limitado à obrigação escolar, mas buscar despertar curiosidade e prazer.
Queda no número de leitores preocupa
Apesar da percepção de que existe interesse pela leitura, os indicadores nacionais mostram uma redução no hábito entre os brasileiros.
Segundo levantamento divulgado pelo Senado Federal com base na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, a parcela de leitores caiu de 55% em 2007 para 47% em 2024. O estudo também identificou aumento das dificuldades relacionadas à concentração e à compreensão dos textos.
A falta de paciência e de concentração para ler também aparece entre os obstáculos. Em 2007, 18% dos entrevistados apontavam esse tipo de dificuldade; em 2024, o percentual chegou a 40%.
Desigualdade influencia o hábito de leitura
Outro aspecto importante é a relação entre leitura, escolaridade e condição econômica. Pessoas com maior nível de escolaridade e renda tendem a apresentar maior proximidade com os livros, enquanto grupos socialmente vulneráveis enfrentam mais obstáculos para acessar obras literárias e outros conteúdos.
A situação reforça a necessidade de políticas que democratizem o acesso à leitura, especialmente para crianças e jovens.
Mais do que colocar livros nas escolas, especialistas defendem a criação de ambientes em que a leitura seja estimulada desde os primeiros anos de vida, com participação da família, dos professores e da comunidade.
Bibliotecas e políticas públicas podem fazer diferença
A formação de leitores depende de uma rede de incentivo. Bibliotecas públicas, escolas, projetos comunitários, feiras literárias e iniciativas de distribuição de livros podem ampliar o contato da população com a literatura.
A tecnologia também pode ser utilizada como aliada. Audiolivros, plataformas digitais e outras ferramentas permitem que o conteúdo literário chegue a pessoas que nem sempre conseguem acessar uma biblioteca ou comprar um livro físico.
O desafio brasileiro, portanto, não é apenas convencer as pessoas a ler. É garantir que elas tenham livros disponíveis, ambientes adequados, tempo, incentivo e condições para transformar a leitura em hábito.
A discussão levantada pelo escritor ajuda a mudar a perspectiva sobre o problema: em vez de simplesmente perguntar por que o brasileiro não lê, é necessário perguntar quem consegue ter acesso aos livros e quais obstáculos impedem milhões de pessoas de se tornarem leitores.
A leitura, nesse contexto, deixa de ser apenas uma atividade cultural e passa a ser também uma questão de educação, inclusão e democratização do conhecimento.